terça-feira, 11 de março de 2008

Anjos na praia

Vi algo que me estarreceu, neste final de semana, ao mesmo tempo em que vi como o ser humano pode ser tão escroque, pois a cada dia mais percebo que as coisas nem sempre (ou dificilmente) são como aparentam ser...
Existem certos adultos que não têm pena das crianças, e lhes colocam cargas muito pesadas, como decisões que deveriam ser tratadas por adultos.
Estava eu em uma praia, no interior do Ceará, curtindo o céu nublado e o harmonioso som das ondas quebrando na praia, já eram aproximadamente 20 horas, quando minhas companhias pediram pra comer uns sanduíches, fui até uma lanchonete pedir os tais sanduíches.
Enquanto esperava o lanche, percebi um homem de seus aproximadamente 40 anos sentado na mesa com uma menina de, no máximo, oito. Pelos traços do nariz e queixo e pela atitude receptiva de escuta da menina, supus que eram pai e filha.
Ele estava visivelmente alcoolizado, mas calmo, chamava a menina de filhinha, meu anjo, minha querida. Como só estávamos nós três no salão da lanchonete não pude deixar de ouvir a conversa entre eles.
O pai falava que iria embora, mas que voltaria pra pegar a menina. Ela calada.
Ele inisitia em tantar convencâ-la que ela ficaria bem, e que ele viria vê-la todos os meses, e no final do ano a levaria pra morar com ele. Ela calada.
Ele levantou-se, foi ao banheiro. Ela calada.
Olhou-me, sorriu-me com o olhar, mas os lábios não expressaram mudança.
O pai retornou do banheiro com passos mais apressados, com uma voz mais decidida:
- Filha, já sei o que vou fazer... eu vou pra Fortaleza hoje... ô, amanhã de manhã... aí na quarta-feira de manhã eu tô de volta, tua mãe vai pro médico, aí eu te pego... eu venho com o caminhão... e te levo com toda a nossa mudança...
Sem expressar palavra, a menina fez um ar de incredulidade...
Pensei: como esse cara é mau! Caramba, ele vai tirar sua filha da guarda da mãe, sem a mãe saber, e ainda vai levar os móveis junto! O cara é um seqüestrador! Que vida ele vai oferecer pra ela?
Na saída da lanchonete, no caminho da pousada, perguntei pra um barqueiro que já tinha bebido o suficiente pra afrouxar a língua, quem era aquele casal:
- A D. Falésia tem uma cabaré lá no inferninho... as três filhas delas são meninas de lá, e na semana que vem ela vai leiloar a menorzinha... tô até juntando um dinheirinho pra pagar a primeira noite da menina!
Essas palavras me subiram à cabeça como lavas no Vesúvio, peguei o canoeiro pelo pescoço e lhe dei uns bons murros, mas ele estava tão alcoolizado que nem sentiu dores.

No café da manhã, na pousada em que estávamos, o comentário era que o seu Aprodígio, marido de Dona Falésia, fora encontrado morto, cravado de balas, nas pedras perto das dunas.
Pasmei...
Ao passar pela mesa do delegado que comentava o caso, o garçom deu este tiro:
- Também, rapaz, qué o quê?! foi casar com a maior traficante das praia, qué o quê?

2 comentários:

Amigao disse...

Amigão,
fiquei até sem ter o que falar amigão.
Sem comentários!

abração,

Jussara Gehrke disse...

e pensar que são tantos os casos como este... muito triste.