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quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Velho Lua


Luiz Lua Gonzaga é um símbolo nacional e nordestino de musicalidade e poesia. Embora muitos discordem, mas seu cancioneiro é conhecido em todo o Brasil, em sua homenagem, e como forma de divulgar um pouco de seu acervo apresento este xote muito gostoso, cuja letra conta com humor e picardia um fato comum no nordeste dos meados do século XX:

"OU CASA OU MORRE

Cumpadi Ludugero o caso é muito séro
seu filho Delotero deu um cheiro em minha filha
Por esse atrevimento eu fiz um juramento :
ou sai o casamento ou morre toda famiia


Já convidei o promotor e o juiz, o vigário da matriz
de gravata e apetrecho.
Tenente Juca chefe do destacamento
pra fazer o casamento ou assisti o enterro.

Cumpadi Ludugero o caso é muito séro
seu filho Delotero deu um chero em minha filha
Por esse atrevimento eu fiz um juramento :
ou sai o casamento ou morre toda famiia

Nossa famiia a mulher só leva chero
Do marido verdadero assim mesmo ninguém vê
A minha filha não pode ficar cherada
Pois ou ela sai casada ou muita gente vai morrê"

quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

Safira é poetisa



Mesmo que a espada rasgue a carne nua e crua
e que todas as gotas de sangue se espalhem na rua
e meu coração não pule, não pulse, não bata,
e minha dor me seja latente, forte, inata
não deixarei de cantar minha vida
porque desta arquibancada dividida
em que vejo o jogo da lida
não quero cadeira cativa,
não quero camarote ou guarita,
neste jogo desleal, surreal, desigual
eu quero jogar, driblar, ser driblada,
bater, apanhar, perder, ganhar...

Mesmo que tua lâmina afiada
dilacere minha alma e minhas esperanças
vou pro salão, rodo em danças
que nunca dancei
e sob os holofotes, subo a escada
vôo entre as torres
ao encontro de mim mesma
ao encontro de ti
um ti que não é ninguém, é todo mundo, é qualquer um,
e neste voar alucinado
na lancinante dor
de sentir-te enfiado em mim
como lança
derramo meu sangue no ar
mas não perco a esperança de amar
um amor tão forte e presente
que me arrebate das dores
e que me enebrie
em toda a minha sórdida alegria

Menina Escondida



Onde está você minha menina
que de tão frágil toda se esquiva
dos problemas, das dores, do escuro?

Onde está você, que se esconde atrás do muro
para que o dia mau não te encontre,
passe por ti e não te toque?

Onde está minha menina
que sumiu no interior de uma mulher
que procurando ver-se forte
faz-de-conta que não pode
sofrer?

Só surge para nós essa mulher
tão erotizada
tão dona-de-si
tão poetiza encantada
escondida n'alma dilacerada
que nem sabe mais compor
a poesia de sua vida!

A vida corre e escoa
como gotas de tempo pela ampulheta sem areia
enterrando sonhos
soterrando cada vez mais a menina
que se sabe existir
no fundo do coração dorido
e que procura emergir
deste mar de lágrimas retidas
que não caem porque a mulher não deixa.

Menina, menina, menina...
aflora logo da mulher
surge para que possamos ver
que nos dias de extremas dores
e angústia
só quer chorar
para que eu possa lhe dar meu colo
meus lábios
meu peito
meu corpo
meu sexo
e lhe consolar da vida
dando-lhe nova vida.

Vem minha menina
pr'eu abrigar você
em meu coração
e deixar você se derreter
em canções
e em melodias perenes que encantarão os ares
com teus sons infindos.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Música sem dó



Eu queria poder escrever o que sinto
neste dia santo-maldito
se me existissem palavras ou rimas
se me existissem idéias ou ideais
se me mostrassem os por-dos-sóis em Marte
e as auroras nascendo por trás das grades
das relações loucas e ambíguas.
Eu diria que eu sou
se eu fosse alguém que me conhecesse,
mas no processo constante de mudança
pergunto ao mes espelho, que não é mágico,
quem eu sou, num quem-eu-sou musicado.
O patético cara de dentro do espelho ri,
me amaldiçoa e abençoa
e goza da minha cara,
porque o que eu queria dizer, não digo,
a platéia que sonho, não existe,
o amor que espero, não vem,
o escuro em que durmo, é dia,
e a solidão que aguardo ter em meu quarto
sempre é povoado
de pessoas vivas e mortas,
presentes e ausentes,
físicas e fantásmicas,
em minhas alucinações não alcoólicas
que tenho ao deitar pra dormir,
mas permaneço acordado.
Eu cantaria uma canção
se a loucura e a lucidez
não me fossem tão claras
neste mundo cinza e preto
das pautas musicais.