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terça-feira, 5 de outubro de 2010

Vá ver se eu tô na esquina!

- Vai ver se eu tô lá na esquina! Saí meio cabreiro com aquele pedido, mas lá fui eu pensando... Quando ía no caminho vi de longe minha irmã chegando na mercearia do Seu Guido, um italiano branquelo "inxerido", quis me zangar, mas sei que Indá sabe se cuidar. Nisto passei por meu tio Prudênço, que morreu no ano passado, quis me espantar, mas ele sorriu tão gentilmente, que nem me assustei, ri pra ele, e ele me deu um pirulito de caju, como sempre fazia comigo... achei graça, e rindo comecei a andar saltando e cantando uma musiquinha besta... Olha lá meu vô, mas meu vô mora no Amazonas: acenei pra ele, que me riu e me fez uma careta linda, daquelas caretas tão feias e graciosas que só nossos avós conseguem fazer... fiquei mais feliz ainda... Vejo Indá saindo da mercearia, rindo e assobindo uma música que nem conheço... e daí, quem tá assobiando é ela, ela é que tem que conhecer a música... Quando tô chegando na esquina, vejo uma ambulância passar voando com aquelas luzes vermelhas rodando e a sirene chamando a atenção... outra, e outra... três ambulâncias que parecem apostar corrida... bonitas são de noite, que as luzes piscantes iluminam toda a rua, e não ao meio dia... Na esquina olhei prum lado, pro outro... e num é que a mamãe estava mesmo na esquina! Tava lá, mamãe, sentada na cadeira de almofada de Dona Carlinha, conversando prosa de mulher... vou chegando perto, ela me vê com aquela cara de: menino, que você ta fazendo aqui? e ao chegar bem pertinho dela, vejo o Brito jogando bolinha de gude comigo... dou uma tacada que tira três bilas do triângulo... eu sou bom nisso mesmo... - Pra dentro, menino! Tá fazendo o quê nesta calçada quente!? - Mas, a senho... - Pra dentro e calado, não me responda! - A sen... - Vá tomar seu banho, moleque, que ta na hora de almoçar... Ora ora, ela manda eu ir na esquina, como vou na esquina se não passar na calçada? Ela me faz uma pergunta e manda que eu não a responda! Manda eu tomar banho e diz que tá na hora de almoçar, vou almoçar embaixo do chuveiro!? Esses adultos ainda dizem que a gente não sabe de nada, só porque somos criança!!

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Talício foi fazer caridade e encontrou algo estranho

Pessoá, acho que vôrtei... se o Seu Ótimos num impricá de querê sumí di nôvo!! Masônti, instava lá no barráco de Seu Tenóro, aí ele nus cunvidô pra gente íí lá num bairro que fica numa ladêra, nóis fumo. Ô bairruzin ruinzin... muita lama e shujo por todo lado. Lá deve de sê um lugá bão pra vivê, purque inté o capêta num tem corage de morá lá... Mais o que mi assutô foi que fumo pruma associação de moradores. Voceis sabe cumé, né: um bucado de gente que se junta qerendo melhorias e boas condições de vida, aí surjem os dois tipos de aproveitadores, aqueles que aproveita a associação pra se candidatá a veriadô, e aqueles priguiçoso que fica viveno de esmola e binifíço do guverno! Fumo levá umas coisa pras familia mais pobre de lá, o Tenóro faz isso todo mêis, desde que ele foi sarvo por uma família muito pobre, numas palafita no interiô do Pará - mas isso é ôtra história! Sei que a gente tava lá no salão da associação, quano chegô uma mulhé, mêi triste. Ela vêi devagarzin, pegô uma cadêra e levô lá pro canto, acendeu uma vela, colocô a vela na cadêra, se ajuelhô e fez umas prece baixin. Eu e o Tenóro ficamo calado, in respêtho à mulhé. Depois da oraçãozinha rápida dela, ela vei e se sentô com a gente, eu olhei mei de canto de olho e vi que tin-a um papé perto da vela. Sem ninguém perguntá, ela dixe que o seu filin tinha murrido naquela nothe, por isso ela chegô atrasada pra reunião. A reunião continuô mei nostalgica... mas foi tudo bem. As dispôs fiquei sabeno que este era o quarto fii dela que murria do mermo jeito... ela durmia com os minino, e de nothe rolava por cima do bebê, e ele murria sufocado!!! Poizé, meu povo, foi nesse lugar de gente sem indéia que a gente foi pará onte...

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Um homem de bem

Lá vinha um homem pacato, um pacato cidadão, que de pacato não tinha nada, porém como cidadão... era um exemplo... Um cara daqueles que é um bom exemplo para não ser seguido, ou melhor, para ser seguido, sim, pela Rádio Patrulha, pela Polícia Federal, pela Receita, por um míssil teleguiado, pelo vibrião da cólera e por todas as mazelas que podem assolar uma vida... mas ele era um cara tão safo,que nada lhe impedia de ser quem era. Leocádio se candidatara a vereador aos dezoito anos de idade, mas ele não queria ser eleito (e mesmo que quizesse, não conseguiria essa façanha com facilidade), ele queria mesmo era ter votos para barganhar com o prefeito. Comprou voto, vendeu a mãe, falou mal de deus e do mundo, falou bem de deus e do mundo... subia em carro de feira, andava quilômetros a pé, de casa em casa, porta a porta, beijou menino catarrento, abraçou cachaceiro fedorento, pagou lanche pra garoto gordo, comprou camisa de time de várzea... ah, e dentaduras, exames de fezes, cvarro pra levar gente pro horpital, caixão de defunto, contas intermináveis de luz pra caloteiros, botijões de gás às dezenas... mas não foi eleito: só teve dois votos! O nobre cidadão até hoje, com seus 78 anos de idade se pergunta: de quem eram aqueles dois votos?

sábado, 6 de junho de 2009

Gustavo, meu novo velho amigo

Gustavo é um cara muito gente fina, daqueles que fala o que pensa e foda-se quem não gostar... ri o tempo todo e de tudo. Sempre tem palavra de ânimo... sabe aquele cara que é tão legal quie chega a ser chato!!??
Pois é... sua picardia sempre o conduz a romances inusitados, e, lógico, a ser alvo das fofocas daquelas que não trepam, como diz Leila Pinheiro (quem não trepa vira polícia da xereca da vizinha)...
Gustavo não liga para sobrenomes, e sua família é mais um grupo de amigos, que um núcleo sólido cheio de preconceitos, tabus e responsabilidades... o conheço há muito tempo, mas só recentemente ele me permitiu relatar suas bravatas...
Ontem o encontrei na rua, tomando umas cervejinhas para comemorar a sexta-feira, quando Miriam, uma enfermeira recém formada que ainda sofre a "maldição de Florence" sentou-se na mesa ao lado, cumprimentei-a... ele me deu uma piscadela e foi até a jovem doutora, segurou sua cabeça com as laterais e sussurrou eu seu ouvido... se adivinhar quem é ganha um chocolate, se erras ganha dois se desistir ganha o que quizer...
- É o Leonardo de Caprio - riu...
E ele com a barba por fazer roçando-lhe a nuca:
- Acertou...
Viraram-se e começaram a rir...
Daí sentou-se...
Hoje de manhã cedo ele me liga:
- Ótimos, preciso de você...
- O que foi Gustavo?
- Meu carro enguiçou... me tira do prego!
- Onde você está?
- Na Baleia (uma praia aqui pertinho)
Nem preciso dizer quem estava com ele no carro... o pior é que o carro pifou ontem quando estavam indo, ela estava sem celular e o dele estava descarregado... só hoje conseguiu carregar e me chamar...
Por que eu? Porque a Miriam é filha de chefe político bem ranzinza, violento e que pensa que as mulheres são sub-seres-humanos, que precisam ser protegidas de tudo e contra todos.
Bem esse é o Gustavo, que me deu a honra de ser meu primeiro post após esta estiagem vocabular.

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Família de Dayse

Eu até pensei que papai e mamãe fossem se separar. Eles brigavam tanto, que eu achava que eu seria a próxima menina da escola que chegaria tristinha na sala de aula e contaria que meus pais não se amam mais, e que a professora me daria toda a atenção, me perdoaria a nota baixa em Matemática e diria que não tinha problema se eu faltasse aulas naquela semana.
Todos os meus coleguinhas da escola têm seus pais separados, só não eu, a Esforência e o Luciângelo. Alguns nem conhecem seus pais, como a Risa, a Marcedolina, a Di, a Zi, o Pauên, o Igo e o Xenofonte.
Outros não conhecem a mãe, como a Socorrilda e o Milzo.
Vivi, Mênho, Joetilço, Bebé e Piér não conhecem nem seu pai nem sua mãe.
Brino, Rogelson, Edinelso, Chikin, Toín, Nebozaradão, Manelito e Beócia moram ou com a mãe ou com o pai, mas conhecem os dois...
Assim, eu estava me sentindo a ovelhinha negra da sala.
Saí pra escola, como sempre, com vontade de pertencer ao grupo das crianças com pais separados, afinal ter família organizadinha: papai, mamãe, filhos, tios, vós, hora-de-chegar, hora-de-sair, hora-de-dormir e de-acordar, tudo organizado, igreja aos domingos, fardinha limpa e engomada, deveres de casa todos feitos, era tudo muito chato!
O bom seria ser diferente do que se espera, chegar atrasado, chamar palavrão por qualquer coisa, não ter hora pra voltar pra casa, mentir pros pais e nunca ser descoberta (mesmo porque eles nem quereriam ter o trabalho de investigar a grande mentira que eu contasse), ser... ser... rebelde... isso sim seria o máximo!
Meus pais discutiam e eu saí pra escola sozinha:
- Não precisa se preocupar, papai, eu vou de carona com a Magali!
E vim a pé mesmo...
Quando cheguei em casa, vi duas enormes bolsas arrumadas na sala: "vão se separar, oba!!"
Meu pai desce a escada suado, com ar de cansaço... minha mãe desce atrás com a face vermelha e toda despendteada, e também com ar de cansada: "tavam brigando! Será que meu pai bateu na mamãe!?" - o ódio quis me dominar, mas o dominei.
Ainda parada na porta vejo meu pai vindo da cozinha com um copo dágua na mão, colcou a mão na cintura da mamãe virou-se pra mim:
- Filha... (para cada palavra que ele falava aparecia em minha mente um monte de imagens)
- ... Nós vamos... (vão se separar)
- ... Fazer uma viagem, ... (vão me abandonar, vão me deixar sozinha!!!)
- ... Já que hoje é quinta-feira santa... (vão passar o feriadão fora e voltarão com a péssima notícia do divórcio: ôba!!)
- ... Eu e sua mãe decidimos... (sei que foram eles que decidiram, e essa cara vermelha dela? esses risos falsos de vocês não me enganam... hipócritas... com essa carinha de desconfiados - sim, eu sei de tudo - eu sopu MUUUUUIIIIIIITO esperta!!!)
- ... E já chamamos sua Tia Verdûmena... (a Verde não, ela é muito direitinha, não vai deixar eu ouvir rock, nem dançar, nem dormir no sofá, nem comer na frente da televisão, vai querer que eu coma salada e peixe - árgh)
- ... pra ficar aqui em casa em nossa ausência (merda!!! eles é quem decidem tudo mesmo!!!!!)
- ... Nós vamos a Fernando de Noronha ( e eu?, eu sempre quis ir a fernando de Noronha, e vocês vão fazer essa viagem pro paraíso do Hemisfério Sul para se separararem!!!)
- ... Por isso, arrume suas coisas, que o helicóptero da empresa vai nos pegar no heliporto às 15 horas!!!
Voltamos depois da maravilhosa semana santa, e meus pais são tidos como exemplo de superação e muitos casais quando brigam dizem que queria que o seu cônjuge fosse igual ao meu pai ou à minha mãe.
Muitos têm raiva de nós porque somos a exceção da regra, e conseguimos viver bem, apesar de sermos muito diferentes.
É muito besta isso que eu vou dizer, mas eu amo minha família.
Perdoem, eu só tenho dez anos, sou mimada e naõ aprendi ainda as coisas ruins da vida

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Salto

Um homem solitário subia as escadas da morte, pensando sua desventura... sem pai, sem mãe, sem irmãos, sem amigos, sem filhos, sem mulheres, sem dinheiro, sem motivo algum para viver, nem para morrer...
- Em quem vou colocar a culpa pelo salto? Escrever bilhete suicida pra quê, se não tenho ninguém que o leia?... se não tenho a quem dar satisfação?...
- Só o vazio em minha mente e em meu peito...
- Não tenho memórias tristes ou boas para recordar, que me impulsionem a subir, nem a descer...
Passo a passo, degrau a degrau, cada vez mais perto do céu, cada vez mais perto do Inferno...
A escada que lhe levaria ao topo, não o levaria para baixo...
- Eu poderia estar subindo de elevador, mas poderia encontrar alguém no elevador que me dissuadisse do ato treslocado... a escada é mais solitária e mais poética...
- Ah, como é bela a vista daqui de cima, esse vento que me assanharia o cabelo se eu não fosse calvo...
- Cuidado ao subir no pára-peitos, se eu escorregar e me machucar não terei forças para o salto...
De uma janela no prédio da frente, um garoto tetraplégico, sentado em sua cadeira de rodas olha para cima e vê o homem... e acompanha com seu olhar incrédulo o vôo vertical, radical, último...
No caminho da descida o homem vê o menino, e vê que uma lágrima descia em sua face pálida de nunca ter sentido o sol - a pólio o havia acometido na primeira infância... o menino viu o homem passar rápido-raio por ele... o menino balança a cabeça dizendo não, meneando-a lateralmente enquanto a água salgada lhe escorria pelo rosto...
- Por que ele chora, se nem me conhece?... ah, se eu pudesse retornar ao topo, perguntaria a ele por que ele chora por algém que não conhece!!!
Olha para cima, e vê o roso do menino ficar vermelho de choro, mas a descida é rápida e não vê mais nada...
O vidro fechado da janela do menino não lhe permite ouvir o barulho surdo do contato do corpo contra o chão...
E o menino chora a morte de quem não conhece, e chora a sua triste vida, que também desconhece.

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Talício brincava quando menino

Marcondolino Pé-de-vento foi meu colega distripulia no tempo de garoto, minino safado e que gostava de arruma trabái pras pessoa, principalmente se fosse padre, pulíça ô pastô de ingreja.
Um dia nós postamo currida desde a Vila de Joaquim Moço até a cidadezinha de Água Benta.
A gente correu maizomeno, uns centincenquenta quilôm-to. Saímo as oitozora da noite, de cavalo... na pedra da Moça Bunita dexêmo os cavalo, puquê era uma rimbancêra mais alta que coquêro alto, tin-a chuvido e a ponte fôisse na inxurrada...
A currida durô dois dia e mêi, purque nós fumo e dispôis voltemo...
Andamo a pé, robâmo umas bicicreta da ingreja de Conceição, peguemo carona in carroceria de camin-ão, entremo num vagão de trem, mas o trem foi pro lugar errado e quano dêmo fé, tivemo que pulá do trem e vortá correno a pé...
Quando cheguemo incasa, percebemo que nós num fazia farta, purque nem meus pai, nem a mãe de Marcondolino derum fé de nossa sumição...
Pôcos dias dispôis dessa currida, meu amigo foi imbora e nunca mais vortô, mas suas lembrança tão cumigo, purque vivemo muito filiz quano a gente era crinça e mulecote...
Ô tempo bão!!!

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Plantão Bizarro

Neste plantão aconteceu algo tremendo, digno das páginas mais bizarras de Alan Poe: O caso veio à baila, quando na semana passada a mulher de uma vítima que não era doadora de órgãos se compadeceu quando viu uma senhora, mãe de três crianças, morrendo pela falta de rins. Imediatamente, a viúva me procurou e disse que queria doar todos os órgãos possíveis de seu marido e que não achava justo permitir que, por egoísmo, outras pessoas morressem: - Já que o corpo de meu marido não será mais útil para ele, nem para mim, que o seja para outros! E não encontramos mais os rins... em silêncio começamos a diligência para descobrir o que acontecia... O rapaz responsável pela manutenção dos elevadores, da câmara frigorífica, das instalações elétricas dos portões eletrônicos e da manutenção das câmeras de segurança construiu, sem ninguém saber, um pequeno necrotério, no qual guardava (muito bem acomodados e conservados) alguns órgãos, que ele roubava de falecidos e vendia. Algo muito bizarro, medonho, criminoso, desrespeitoso e... Ao conduzir os corpos ao necrotério do hospital, ele identificava de quais corpos iria retirar os órgãos, e com precisão cirúrgica os extraía e os acomodava imediatamente no gelo... Logo fazia contato com os compradores de órgãos que vinham de helicóptero ou jatinhos e levavam as frasqueiras devidamente lacradas para seu destino final... Ele não levantava suspeitas, pois era ele quem lavava os cadáveres e os vestia para colocar nos esquifes... Ao vê-lo sendo preso, havia indignação e asco nos olhares de todos nós do hospital

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Talício e remédios caseiros

É muitho comum a gente vê esses remédio feito im casa mermo... tudo cum erva, casca de pau, pedaço de raiz e tanta côsa que inté parece côsa de feticêra. Veja bem, num tô dizeno que os remédio casêro num tem eficiênça, mas acontece umas côsa que só rino mermo pra guentá. Eu tava com Verisgoberta (min-a muié) já uns 10 anos. Todo mês a mãe dela trazia lá pra casa uma garrafada... Garrafada é uma mistura de tudo o que as pessôa acha que faz bem pra saúde. Tem garrafada pra bebê, tem garrafada pra fazê asseio nas parte intima e assim vai... Como a mãe de Verisgoberta era muié de respêto num falav cumigo essas côsa de mulé, mas um dia ela levô a garrafada e eu tava sozin... - Pois não, min-a sogra... - Não... é que eu vim trazê umas côsa pra Verin-a - Pois não, me dê que intrego pra ela! - Tá bom - e ela mintregô a garrafa cum líquido inscuro, chêi de côsa - folhas, pedaço de pau, essas côsa... - Min-a sogra, mim diga uma côsa... - O que é meu fíi! - Pra que servi esse negóço de garrafada? - Pra tudo, meu fíi... pra dor, pra inframação, pra cicatrizá... - Sim, mas é bom mermo? - Ói meu fíi, eu têin-o sessenta anos e usao desde meus catorze... claro que isso é bom - Mas si é tão bom, por que a sin-óra inda num ficô bôa?!

quinta-feira, 31 de julho de 2008

Talício e as belezas do sertão

Quano eu tava com um ano de casado, min-a mulé arresorveu cumemorá natár... ela dixe que era uma festa bunita e que fazia bem pra gente se aprocimá de deus... Tudo bem, todo marido recém casado topa tudo mermo... mas eu num vi nada que parecesse cum deus, a-nun-cê um presépo que fizemo... No segundo natár juntos, ela mim falô duma árvre de natár, que ela tin-a visto numas revista e inspricô pra mim cuméra essa tár árvre: era uma ponta de pin-ê-ro, cheia de infeite... - Mulé, onde eu vô arrumá pin-ê-ro neste diacho de sertão? - Pinheiro, homi, é uma árvre que nasce nos lugá frio! Num concordei cum isso, e fui fazê uma árvre de natár com nossas pranta daqui... cumeu tava brocando umas terra pro prantio, purque po inverno tava chegano, peguei uns pé de sabia, disfolhei, tirei do chão, discasquei, dei umas cortada aqui, umas acolá, e pronto, tava feita a min-a árvre, agora era só ela infeitá! Quano eu ía pra casa, parei no bar do Toinzin pra dar umas bicuricada numa cachaça boa que ele tin-a... aí passô um tár de turista que gostô da pranta cortada e me ofereceu um baita din-ê-rão pelo tronco... ora, de onde esse vin-a tin-a muito mais... O francês ficô loco pela pranta e falô pruns amigo... na ôtra semana eu tirei mai-so-meno uns vinte pé de sabiá e discasquei pros instrangêro... Foi um natár farto aquele, e min-a mulé pégô o din-ê-ro de uma árvre só e comprô uma baita árvre de natár, tão alta que ficô no alpendre da casa, purque num cabia na sala. Mas inté hoje num intendo: cumé que a mulé prefere apunhá uma árvre de prástico teno tanta pranta bunita de verdade que infeita muito mais? Vá intendê...

quinta-feira, 10 de julho de 2008

ATENDER BEM SEMPRE


Meu plantão foi cruel, mais uma vez, mas amo o que faço, por isso aguento firme as cinco cirurgias durante a madrugada, fora aquela fila de parideiras, que, puxa vida, nunca diminui, só aumenta...
Em meus plantões diários faço uns três partos, mas nos noturnos... ontem foram nove... nove moleques... mas a atenção é dada a cada um como se fosse único, porque é único - cada um nasce com sua identidade, uns choram muito, uns só soluçam... uma me chegou tão fraquinha, asfixiada, deu trabalhinho, mas tá bem...
Entre 3 e 3 e meia olhei pro anestesista:
- Eu não aguento mais, vou tirar uma soneca... me chame se o mundo cair ou em 15 minutos, por favor, o que acontecer primeiro...
Ele riu:
- Vá doutora, você está a cinco noites seguidas de plantão, não sei como agüenta!
- Eu não agüento, vou morrer lá no repouso...
Durmi meus 15 minutos de beleza, levantei, escovei os dentes, enchi os pulmões de ar, coloquei meu riso nº 16 (meus risos são numerados de acordo com o animal do jogo do bicho, 16 é leão - altivo, inabalável, forte e bonito) e saí pelos corredores... dei uma olhadela lá pra fora e vi tumulto... "não, definitivamente, não quero saber", fui ao refeitório tomei uma aguazinha e fui à recepção... chega uma ambulância com dois rapazes baleados... assumi junto com minhas anjas, se minhas enfermeiras não fossem tão unidas e sincronizadas eu teria muito mais trabalho... comecei o atendimento, um faleceu, o outro levei ao centro cirúrgico...
Duas balas no tórax... uma na nuca... às 4 horas e 50 minutos resolvi dar uma paradinha...
É minha filosofia de trabalho, quando atendo feridos à faca ou à bala, ou acidentados, não querer saber o que aconteceu, pois minha função é cuidar deles e não julga-los, para isso tem gente especializada.
Fui tomar uma água, e escutei as auxiliares de enfermagem conversando sobre o sequestro das filhas do gerente do banco...
- Meu Deus, violentaram as meninas, mas a polícia resgatou elas e prendeu os caras depois de um tiroteio...
- Onde foi isso, meninas?
- Doutora, foi aqui, inda agora, deu na rádio que uma menina tá ferida e a outra violentada...
- Meu Deus...
- Esse rapaz que a senhora tá operando foi o que violentou a menina...
- É doutora, a menina ta lá fora, ele arrancou o dedo da menina e abusou dela...
Olhei para a mesa cirúrgia e tenho que confessar, senti uma repulsa tão grande àquele rapaz, que em meu íntimo tive vontade de "errar" no atendimento, de uma forma tão irremediável que ele fosse a óbito...
Voltei à mesa e quando deu 5 horas e 15 minutos, mandei que o levassem à sala pós cirúrgica e fui atender outros pacientes...
O que mais me fez concluir o atendimento com perfeição foi me lembrar das histórias que contam de estupradores em prisões... tomara que ele se recupere logo e possa ser sair do hospital e ir para o presídio.