quinta-feira, 8 de maio de 2008

Vitoriosa

Midiã resolveu fugir de casa. Pegou sua mochilinha da escola, juntou três camisas, duas saias, dois calções, um par de chinelas meio corcomido pelo tempo, um lençol, alguns biscoitinhos recheados, um sabonete (prevenida), um papel com todos os telefones que seriam úteis (do pai, da mãe, do tia Ardósil e de uma irmã de oração da igreja).
Na saída roubou a bíblia de sua mãe e deixou um bilhete em cima da televisão: "Fui embora, não me procurem."
Sua família viajara para João Pessoa (Congresso da Igreja Evangélica na qual seu pai era pastor) e a deixara na casa do Tio Alderlânio.
Foi à praia, à rodoviária, ao museu, à gare onde subiu num cargueiro que só-Deus-sabe-pronde-vai... e foi.
Não queria se preocupar com a preocupação de seus pais, para não sentir remorsos... e foi.
Frio, calor, medo, fome, escuro, sol, sol, sol, sol, sol e sede não lhe fizeram desistir... e foi.
Saudades não lhe fizeram telefonar, doenças também não... e foi.
Sem notícias algumas de São Joaquim de Muzabem vivera sua vida, dos 10 aos 45... vivera tudo o que pudera viver... estudara, trabalhara, criara, fabricara, enriquecera, crescera, crescera, parira, rira, chorara, rira, chorara, sentira dor, aliviara dores, amara, odiara, amara novamente, fôra palhaça, fôra esperta, fôra meticulosa, crescera, vivera, amadurecera, envelhecera...
Chegou em Muzabem, que já não era mais São Joaquim - destituíram o Santo nos idos dos 1986. As quinze casinhas devem ter cruzado entre si, pois haviam mais de 5500... a população já formava uma pequena cidade, mas certamente a casa de seus pais seria achada, afinal quem desmancharia um lago?
O lago virara represa - a casa não existia mais, mas um velho sentado numa casinha modesta e limpa, com jarros de plantinhas e chamarizes de beija-flores nas calhas, lia uma bíblia bem velhinha... como não reconhecer aquelas mãos, aqueles olhos azuis clarinhos, aquele jeito calado... eram onze horas da noite.
- Pai, vim lhe dar boa noite - de soslaio olhou para dentro da casa: sofá, uma rede na sala, uma senhora andava pelo corredor com a dificuldade dos seus 80 anos e 120 quilos, lentamente vindo...
O velho levantou os olhos, esboçou um leve riso no rosto sofrido pelas perdas que a vida lhe dera:
- Isso são horas de uma menina chegar em casa?! Meu amor, bota água prum chá que Midiã tá com aquela vozinha de quem quer tomar chá com biscoito...

7 comentários:

Joanne e Cláudia disse...

Ai,Rui
Que coisa mais linda!!!Bom pai,esse..
Agora faz um para homenagear as boas e velhas mães...Puxa,estou longe da minha há tanto tempo...
beijos

Débora disse...

Olá,amigo
Sabe,também já fugi de casa...mas,só que não durou tanto tempo..fui num sábado e voltei na segunda..rsrs
Mas,admiro a Midiã pela coragem...

beijo

José Luiz Nascimento disse...

Oi,professor
Vc é mestre em crônicas e contos...consegue nos prender e tentar adivinhar como "vai acabar isso" ?...gosto muito sempre!
abraço

BRUNO LEONARDO disse...

Fala,mestre
Era filha de pastor,né?tá explicado pq fugiu de casa...Mas,ela não mandou nem um "dízimo" durante esse tempo todo??Bem feito....huauhauhau
abraço

Flávia & Kbça disse...

Sempre bem né Rui? sempre um prazer ler seus contos.

Muito bom esse, como todos os anteriores, mas esse em especial, estamos em semana de comemorar dias das mães e nos faz refletir sobre almuas atitudes familiar... viejei? acho que não, rsrsrs

até.

Amigao disse...

"Isso são horas de chegar?", "tá com aquela vozinha de quem quer tomar chá com biscoito".
Táquepariu amigão, muito bom isto.
Me emocionei com a parte final e desejei que quando eu tiver que voltar pra onde quer que seja, a recepção seja a mesma.
Abração do amigão

Vênus disse...

Oi,querido
Como sempre vc ou nos faz rir,ou nos emociona...
Sabe,acho que os bons pais aguardam sempre..é como se fôssemos até a padaria e voltássemos com pão fresquinho,depois de passados anos.....feliz de quem os tem ainda!Sinto saudades do meu!
beijos