sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

Safira respira



Seu Andálio me ligou esta semana:
- Safira, quem fala aqui é seu pai...
- Meu, o quê?!
- Você sabe... estou indo para Florianópolis esta semana e quero que você vá me pegar no aeroporto, porque eu...
- Peraí, quem você pensa que é pra dizer o que quer?
- Me respeita, menina, eu sou seu pai!
- Pai? Não me faça rir... Não pense que porque depositou espermas em minha mãe lhe dá o direito de ser pai...
- Você deixou ela na cama com o nariz quebrado e foi embora...
- Se eu bem quis nascer, fui EU e ninguém mais, que correu ou nadou até chegar ao óvulo...
- Fui EU quem arrebentou o óvulo e ganhei a corrida, deixando para traz quinze milhões de irmãos meus que queriam tanto quanto eu nascer, mas fui Eu quem consegui...
- Não você... você não fez nada por mim...
- Você voltou pra mamãe, e a largou no sexto mês de gravidez...
- Fui Eu quem arrebentou a placenta e saí sozinha, no quintal, quando mamãe lavava roupa pra uma senhoras, esposas de funcionários da Prefeitura em Ponta Porã...
- Fui EU quem cismou de crescer, o peito seco de mamãe, a falta de leite lá em casa, porque faltava dinheiro...
- Fui EU quem me fiz adulta aos dez anos pra ir ao colégio sozinha, fui Eu quem aprendeu a andar de bicicleta sozinha e a consertar também uma velha bicicleta que peguei no lixão...
- Fui EU quem aprendeu a ler e a contar sozinha, e quem fazia todos os meus deveres de casa...
- EU é que no final do ano pedia pras coleguinhas os restos de seus cadernos para formar um caderno para meu próximo ano escolar...
- Fui EU que chorei quando tomei minha primeira coca-cola aos dezessete anos...
- Fui EU quem ralou pra cacete pra terminar o Ensino Médio e, entrar numa faculdade...
- Fui EU que não escolhi o caminho de abrir as pernas para ter dinheiro, mas me valorizava e não tinha um ícone masculino em quem encontrar referência de homem, por isso namorei tarde e ainda não encontrei um homem a quem eu possa me entregar sem reservas...
- Fui EU quem passei pela infância e pela adolescência sonhando com uma vida adulta com dinheiro...
- Fui EU quem me acompanhei, sozinha, na minha festa de formatura, porque mamãe ficou impossibilitada de andar depois que você a atropelou no seu belo carro importado - vagabundo!!...
- Fui EU quem me ensinou a dirigir, EU quem escolheu meu primeiro carro e que me auto-socorri quando de meu primeiro capotamento...
- Você não é, nem nunca foi pai... nunca te vi ao meu lado a não ser para fazer chantagem...
- Você lembra do enterro da mamãe? Não, não tava lá...
- Lembra do meu primeiro dente, nem 'fada do dente' tive, porque criança miserável cedo aprende a não acreditar em contos de fada...
- Lembra do meu casamento... do meu primeiro filho, e do meu segundo... sabe pelo menos os nomes deles...
- Lembra quando fui convidada a ganhar um prêmio em Barcelona por ter inventado técnicas de parto para salvar crianças prematuras...
- Lembra do atentado do trêm na Espanha, que ceifou a vida de meus dois filhos e de minha mãe...
- Lembra do que sobrou deles para eu enterrar? Você sabe ao menos em qual jazigo estão? Sabe ao menos do cemitério?
- Não... você não sabe nada... nem de mim, nem de ninguém que me seja importante... você não sabe nem quem eu sou... e não porque eu tenha me escondido, quem se escondeu foi você... até o dia primeiro de dezembro esperei que você me ligasse, mas meu aniversário de ## anos foi o limite de minha espera...
- Como você nunca quis saber de mim, não queira mais saber, ok... esqueça...
- Que ironia, você nem tem o que esquecer, porque nunca viveu nada de minha vida...
- Deixe-me em paz com minha vida, que quero sair daqui, ir lá na no topo daquela pedra, dar uma bela fungada nesse maravilhoso ar e...
respirar

5 comentários:

Vênus disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Vanna disse...

Olá, agradeço a visita e o comentário. Muito emocionante este desabafo. Tive um pai próximo de mim, mas pouco participante da minha vida e hoje sinto q ele sente falta disso, mas ...
Abraços, q vc tenha um ótimo Natal e um ano novo de grande realizações.

Caloã Novellino disse...

Como meu pai participa muito da minha vida, apesar de ser separado da minha mãe, não entendi o post! :P

Amargo demais.

Abraços.

ps.: Já assinei o RSS.

Marcos disse...

Quanto amargor!

Vênus disse...

Olá,Rui
Primeiro quero desejar-lhe um Natal de Luz e um Ano Novo repleto de sonhos realizados..
Quanto ao post: bastante profundo e verdadeiro..Se alguém conseguir sobreviver sem pai do jeito que Safira sobreviveu,chega um momento que ele não reperesenta mesmo mais nada...Muito bom!
Grande abraço