domingo, 3 de fevereiro de 2008

Discurso e Prática



Vejo que muita gente tem um discurso muito distante de sua prática. Claro que não digo que existe distância entre teoria e prática, porque em relação à conduta social isso não só é improvável, como é quase impossível, pois atitudes humanas são realizadas de acordo com as teorias que o ator defende, ou vive.
A pessoa pode até desconhecer isso, mas certamente ele vive de acordo com o que pensa, por mais que seu discurso seja diferente dessa prática.
Nesta época de carnaval percebe-se isso de forma mais clara, pois inúmeras pessoas que discursam que não gostam das festas mominas, não rejeitam o convite para um baile carnavalesco.
Da mesma forma vejo pessoas discursando contra corrpução, falta de ética dos políticos ou de funcionários públicos, e falta de compromisso dos professores, etc, etc, mas... quando vemos sua prática... vejam esses exemplos:
  1. certa vez durante um comício a candidata à prefeitura de Fortaleza bradava: "Fora essa corja de corruptos que fazem da coisa pública uma grande vergonha!!", aí eu indaguei aos colegas: "-Sim, mas se eu fosse deputado e propusesse para vocês uma quantidade imoral de reais para vocês votarem em mim, ou lhes desse um emprego na assembléia pra vocês não fazerem nada, quem não aceitaria?" - todos os 15 calaram, aí sentenciei: "Fora a corrupção porque não é com vocês..." - isso foi na década de 1980;
  2. na década de 1990, estávamos entrando em greve, e os discursos populistas e socialistas estavam muito em voga, principalmente os socialistas: direitos iguais, isonomias de direitos e salários, etc, etc... então convidei as pessoas do movimento grevista para fazermos feiras e distribuirmos sistematicamente, mês a mês, para famílias que eram vítimas da seca e da má gestão. A maior discursante sobre o socialismo e o cubanismo para o Brasil disse: "qual o quê, o meu dinheiro eu ganho com muito esforço, não vou ficar dando cesta básica pra esses preguiçosos"; aí, atirei: "Ah, então a teoria que te embasa não é o socialismo (que defende distribuição igualitária de bens e direitos), mas o capitalismo e a propriedade privada, mas o que te incomoda é que você ganha pouco!";
  3. vi um professor de sociologia e filosofia querendo chamar a atenção dos alunos para levarem a sério os estudos, e disse algo mais ou menos assim: "Olha, eu não preciso estudar essa matéria porque eu ja sei, vocês é que não sabem... eu não tô nem aí se vocês vão ou não aprender qualquer coisa, o que eu quero é meu salário no final do mês";
  4. e, por último, é lamentável saber que a maioria dos brasileiros se indigna com todos estes escândalos, do mensalão aos cartões corporativos, mais por não fazerem parte dos esquemas do que por achá-los errados...

Você ouviu ou viu neste feriadão alguma notícia sobre política, orçamento, corrupção? até os cartões estão sendo trocados pelas coxas e bumbuns do carnaval! E pode ter certeza... os ladrões que dizem que "usaram mal os cartões" vão querer "devolver parte do dinheiro".

Minha filha tem 15 anos, se ela usar mal um cartão de crédito caberia uma repreensão, mas um monte de adultos, acostumados a especularem nas bolsas... pô eles e elas não são cidadãos comuns, são os gestores do quinto maior país do mundo, do maior país da América Latina, responsáveis pela vida de 200milhões de pessoas, se não sabem usar um cartão de crédito??!! Será que sabem cuidar do país...

Todas estas coisas e muitas outras é que me fazem sentir a necessidade de alertar quanto à distância entre discurso e prática.

Cuidado, meu povo, este ano é ano de eleições municipais, não escutemos tanto os disccursos, conheçamos melhor a vida deles!!!

2 comentários:

tita coelho disse...

Falou uma grande verdade Eri! Fiquei horas buscando notícias sobre o rumo do País...procurando bem a fundo achei...mas te digo, foi uma missão quase impossível!
beijos

Marcos disse...

Ano passado foi publicada uma pesquisa do Transparência Brasil que afirmava que 51% dos brasileiros afirmavam que também roubariam se ocupassem um posto público. Foi apenas a comprovação científica do que eu já sabia empiricamente. desde então desisti de falar em "o povo" como uma coisa boa.